Por razões que até o padroeiro dos motoristas São Cristovão desconhece, estou tendo que tirar uma nova carteira de motorista. Isso mesmo, primeira habilitação. Minha primeira carteira era do Rio de Janeiro, emitida em 1984, num tempo que os computadores eram novidade e sistemas que funcionassem uma raridade maior ainda. Quando da minha solicitação de transferência dos dados da minha carteira para a jurisdição do estado onde moro hoje, o Detran RJ não achou minha carteira. Abriram um processo e pediram que eu fosse ao Rio levando a ata da minha prova de direção. Indiretamente, me disseram - "tira uma nova que é mais fácil...". E cá estou eu, fazendo teste psicotécnico (o laudo foi "apto", logo louco não sou...), exame de saúde (pelos próximos cinco anos, posso fazer tudo no trânsito...), prova de legislação (acertei 28 em 30, entendo de meio-ambiente a mecânica básica...) e vou fazer prova prática. 22 anos dirigindo e vou fazer prova prática... Minha esposa já tinha me ensinado o real sentido da palavra "anacrônico" (por causa de um texto que li, onde um transeunte usava uma gravata plastron, e o autor dizia que era uma vestimenta anacrônica, achei que era sinônimo de "cafona"), mas agora sinto na pele o que é anacronismo... anacronismo é um gordinho de cabelos prateados tirando primeira habilitação, pegando senha para atendimento junto a jovens recém-saídos da adolescência, alguns deles ainda de aparelho nos dentes...
Estava passando o final de semana em Mosqueiro, na casa de praia dos meus sogros. Com o desabastecimento de água que abateu-se sobre o distrito, e com a necessidade de água mineral para uso pela minha caçulinha, rodamos pelas ruas atrás de água. Encontramos uma pequena venda, na rua 16 de Novembro, vendendo garrafões de cinco litros. Minha esposa não é de esperar para resolver as coisas, e assim que estacionei o carro, ela foi logo saindo do carro e se dirigindo ao depósito para comprar a água. Nesse momento, um senhor magro, com uma bolsinha na mão, passou perto da janela do carro e disse - "O cara quando é gordo é fogo, já nem sai mais do carro pra fazer as coisas; eu já fui gordo assim..." e foi se afastando, naquele passo peculiar dos bêbados. Pensei com meus botões, mesmo estando de camiseta - "Puxa, o cidadão está embrigado as seis da tarde..." E ri dele dizendo já ter sido gordo. Com aquela magreza de quem se fosse pego pelo caminhão do osso daria para fazer no máximo um pente e dois botões, era algo difícil de acreditar. No dia seguinte, passando pelo mesmo local quase a mesma hora, lá estava o mesmo cidadão atravessando a rua, com a mesma sacolinha de ferramentas, e igualmente bêbado como um gambá, tal qual na noite anterior. Com tanta "cana" no bucho, comecei até a acreditar que ele já tinha sido gordo mesmo. Mas a esse preço, não dá: deixe-me com meus quilos a mais porém com meu fígado em bom estado...